
Ela ficava lá no alto, pregada naquele imenso pano azul escuro infinito, brilhando como todas as outras – acho- estrelas que habitavam as alturas. Com uma cor meio parecida com aquela variedade do quartzo que tem uma tonalidade violeta. Muito excêntrica era Alice Côrdia Mestita. Enquanto as demais emitiam aqueles feixes meio azulados, maná, ambáricos… ela insistia em ser diferente.
Mas um dia, enquanto mil olhares fitavam Alice no céu, ela sentiu como se seu lugar não fosse ali. Todas aquelas faces estreladas ao seu redor, todos aqueles planetas ali um pouco mais adiate. Nada daquilo parecia colorido o bastante para Côrdia Metista. Ansiava por coisas novas; literalmente, pessoas novas. Estava cansada de toda aquela atenção, aquela admiração humana. Aqueles olhos que nem sempre merecem contemplar a beleza residente nas estrelas.
E ao contrário do que todo mundo pensa, o que uma estrela sabe fazer de melhor não é brilhar. As pessoas passam suas vidas inteiras com esse pensamento na cabeça: estrela, brilho. Não. Uma estrela não é apenas brilho, charme, glamour, divindade, perfeição… O que elas sabem fazer de melhor é cuidar de sonhos. Sim, dos sonhos de todo mundo. Elas cuidam para que o sonho não se vá, para que o sonho não morra sem luz quando a noite cai, para que todos os sonhos possam crescer, crescer, crescer debaixo de sua luz e da luz do luar.
Sonhos são como pequenas jasmins brancas: frágeis, aromáticos e brancos. Sim, são brancos. Alice sabe que sonhos são brancos. Todos eles. Por mais alegres, lúgubres, entediantes, sem sentido, lúcidos, patéticos, todos carregam consigo a mesma cor.
Pois bem, nesse dia Alice parou de brilhar. No céu as pessoas perderam de vista aquele ponto de luz violeta e começaram a procurá-lo todos os dias. Ninguém nunca mais o viu. Côrdia Metista havia apagado e, consequentemente, caído. Em seu trajeto rápido pelas diversas camadas da atmosfera, partia-se em diversos pedaços e deixava cair muita poeira estelar. Ao colidir com o chão, sobraram poucos pedaços que, aos poucos, foram se reduzindo ao mesmo pó espacial citado anteriormente.
Algum tempo depois, numa noite estrelada – no entanto, sem aquela estrela violeta -, alguém passeava por um deserto imenso onde um dia disseram ter caído algo vindo do céu. Esse mesmo alguém percebeu que havia, misturado com a areia do chão, um pó diferente de uma tonalidade estranha. Não tinha cor de areia, parecia brilho de estrela. Era pó estelar.
Ao levar essa substância para perto do rosto e examinar bem de perto e ter encontrado – finalmente – o que procurava, disse:
- Então é assim que é a essência dos sonhos. Cor de ametista.