Tom Alaranjado

Crônicas em cores

O ver de cinza

Posted by Hannah Andrade em maio 15, 2010

Numa cidadezinha qualquer no interior de um pequeno país também qualquer, onde os dias são mais curtos do que as noites e as cores mais escuras são predominantes que as mais vívidas, vivia um menino, um garoto como qualquer outro, exceto pelo fato de ele ser verde.

Todo mundo naquele lugar era cinza, azul, preto, marrom… mas ele era verde e vivia. Vagava pelas ruas como quem procura alguma coisa; passeava pelas pontes como quem quer ir a algum lugar, mas não sabe onde; escutava tudo e ao mesmo tempo nada.

Era apenas um alguém na multidão de corpos que andavam sozinhos pela cidade morta, no entanto, ele era verde. Não estava do lado de lá nem do lado de cá. Poderia ser facilmente confundido com qualquer outro. Ele era verde.

Um dia choveu, choveu muito naquela cidadezinha, e as pessoas todas se esconderam dentro de suas casas. Era impossível ver um rosto sequer na rua. O cinza dos dias de chuva grudava em todos, todos ficavam total ou parcialmente cinzas naqueles dias.

Ao ver a rua sem ninguém, os olhos do acaso percorreram todos os lugares da cidade. Ali, bem no centro da praça, debaixo de um guarda chuva cinza, estava alguém. Alguém que fixamente olhava para as gotas de chão que caíam no chão. E aquele alguém era verde.

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Símbolos

Posted by Hannah Andrade em abril 20, 2010

Todos diziam que nunca o viram sair de casa, ele sempre fora um homem solitário, gostava de pintar e acordava cedo e nunca abria as cortinas de sua casa. Tinha dois carros na garagem, lanchas e até um iate luxuoso no porto da cidade. Conhecia uma boa quantidade de pessoas e muita gente o conhecia, tinha alguns amigos, mas quase nunca os convidava para irem a sua casa. Não gostava de atender ao telefone, noites escuras e dias nublados.

Durante a primavera, sim, ele abria todas as cortinas da casa e armava uma rede no jardim, ouvia música e tomava água de coco, assim como no verão. Era um homem de cabelos castanhos cor de casca de árvore, olhos esverdeados da cor do mar. Tinha uma pequena barba e um bigode não muito grande. Seu nome era Harley, embora todos o conhecessem por Sr. Castaway.

Quando o inverno chegou, Castaway simplesmente desapareceu. Ninguém mais o via. E foi assim durante dois meses e quatro semanas. Nos últimos dias de inverno, alguém foi até a sua casa. Era uma mulher muito bonita. Todos sabiam quem ela era, mas nunca a tinham visto ir até ali. Era ela a quem Harley amava, mas ela não o correspondia. Uma velha amiga de infância. Os dois viveram tanta coisa juntos. Ela sabia tudo sobre ele, ele sabia um pouco sobre ela. O suficiente para dizer que era o amor da vida dele.

A mulher deu algumas voltas ao redor da área da residência, não demorou muito e começou a seguir em direção à porta. Ao chegar perto, percebeu que estava aberta e vinha uma luz lá de dentro. Era noite e fazia frio, ninguém deixaria a porta aberta. Ela, então, se aproximou e empurrou a porta, entrando na casa.

Tudo estava bem organizado e limpo. Andou até a sala de estar e não viu ninguém. Procurou pela cozinha, biblioteca, escritório, banheiro, sala de vídeo, quintal. E nada. Subiu as escadas e revistou o piso superior. Nada, de novo. Só faltava o quarto do Sr. Castaway. A mulher abriu a porta e olhou: nada viu. Foi até a cama e se sentou. Havia um papel de carta cor de rosa em cima da mesa de cabeceira. Ela pegou e abriu.

“Saí para comprar os presentes de Natal.
Volto com o jantar.
Harley, “

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Mudança incolor

Posted by Hannah Andrade em fevereiro 20, 2010

Olhei mais adiante e vi uma linda praia. Cheia de som e música, pessoas e gente, água e mar, céu e azul… Um imenso jogo de realidade. Onde não existe espaço para sonhos, a luz recebida pelos olhos projeta a imagem à minha frente. Sigo caminho deixando para trás tudo o que já fui um dia. Quero a partir de agora ser outra totalmente nova, sem resquícios da anterior. Mas a mudança é algo difícil. Tende a deixar marcas e a demorar para se concretizar. Permaneço caminhando em linha reta.

Pássaros cantam em algum lugar, o cheiro da maresia invade minhas narinas acostumadas há tanto com o cheio de poluição das cidades grandes. Ouço a melodia de um violão. É aquela música conhecida dos Beatles. Aí vem o Sol, está tudo bem. ♪ Ecoa na minha mente essa sucessão de acordes e o ritmo contagiante. Penso que isso não fará mais parte de mim assim que terminar de atravessar a ponte. A horrorosa ponte entre eu e eu mesma, que se estica a cada segundo mais. E à sombra da ponte vejo tantas outras de mim ali sentadas. Esperando o momento de vir à tona.

Não posso continuar me apegando a essas coisas que fazer parte disto que sou agora. Torno a repetir infinitas vezes que preciso deixar isso para trás. Deixar-me para trás. E é quando vejo alguém estendido do outro lado da ponte. De cabelos não muito longos balançando ao vento. Existe uma flor como acessório de enfeite em seus cabelos que parecem claros. É uma silhueta magra e não muito comprida. Talvez uma garota da minha mesma idade.

Apresso o passo para me encontrar com quem quer que ela fosse. Alguma coisa parece me chamar instintivamente até ela. Vou aos poucos esquecendo de tudo ao meu redor, tudo o que passou. O mar, a costa, as pessoas, os sons, o violão, tudo vai ficando cada vez mais fraco. As cores vão perdendo a intensidade até se esvaírem por completo. Estou quase chegando até o outro lado. A pessoa ainda está ali. Ela parece estar olhando em minha direção. Corro o mais rápido que posso. À medida que avanço percebo seus cabelos claros e seus olhos verde-azulados, seus pés descalços na areia, seu colar esquisito, uma roupa que não parece de praia e um sorriso agradável.

Ela estava a três passos de mim, não havia tempo para hesitar. E quando finalmente cheguei até ela. Fundimo-nos. Não havia mais eu nem ela nem praia nem nada. Tudo ficara diferente e eu me tornei parte de um novo mundo e o que sou neste momento.

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Procurei

Posted by rebecasalem em fevereiro 11, 2010

Procurei aqui

Procurei ali

Procurei por ali

Procurei por aqui

Achou !

Não ?

Procurarei de novo

Procurarei aqui

Procurarei ali

Procurarei por aqui

Procurarei por ali

Achou ?

Não !

Procurei mas não achei

Onde está aquilo que aqui eu botei ?

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Olhares

Posted by rebecasalem em fevereiro 11, 2010

Estrelas são mais que estrelas

Estrelas são pessoas

Pessoas que já se foram

E agora

Viraram estrelas.

As estrelas olham a gente lá de cima

Como nós olhamos elas daqui de baixo

Mas as estrelas não simplesmente olham.

Elas olham

Mas olham através de nossas faces

Através de nossos olhos

E nossas mentiras

Elas olham nossas almas

Olham uma coisa profunda.

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Como somos nós

Posted by rebecasalem em fevereiro 11, 2010

Hoje parei, pensei e vi… gente eu tenho 2 blogs pra cuidar e tenho que fazer coisas importantes, mas bem, o blog é mais importante !  Afinal eu nunca mais postei neles.  Então vim aqui para postar, bom pra começar…

Pra quem não sabe, meu nome é Sarah, e bom, gosto de chocolate de pizza, amo muito meus irmãos adoro fazer tudo que eu posso fazer, afinal, é bom fazer enquanto ainda tem tempo. Como diz a música “Lanterna dos Afogados” – ♪ Uma noite longa, para uma vida curta… ♫

E por ai vai… mas bom, nem adianta eu querer enrolar pra falar pouco sobre mim, mas, começando mesmo agora…  Eu gosto muito de fazer esportes, gosto de ler, ouvir música, gosto de pizza, amo lasanha e chocolate, amo muito mais que tudo no mundo a  minha familia, amo muito mesmo fazer coisas junto com minha irmã que afinal sempre está junto comigo fazendo as loucuras que inventamos juntas ! Bom, também gosto muito do meu irmão, afinal, ele sempre me ajuda com muitas coisas e sempre me explica tudo o que eu pergunto pra ele, mesmo as vezes a gente brigando, a gente se ama, afinal, amor de irmão nunca acaba ! [que bom !] A verdade é que eu amo muito meus irmãos apesar de tudo. E eu também amo muito meus pais ! Aliás, não podemos esquecer deles.

Agora, eu vou ter que parar de escrever aqui, eu e minha irmã vamos fazer brigadeiro [oba !] e vamos se matar de comer pra ficar com dor de barriga. [cada idéia que a gente tem ! Eu nem queria achar graça. ]

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Nós

Posted by rebecasalem em fevereiro 11, 2010

Um dia eu andei

Um dia parei

Parei pra te falar

Que parei por você

Por que eu parei ?

Não sei

Parei por você

Parei pra você

Parei para tudo

Que um dia já fomos nós.

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Inverno

Posted by rebecasalem em janeiro 21, 2010

Inverno. Quando chega, tudo fica mais triste.

Certo dia em um vilarejo tão, tão distante daqui, o inverno chegou. Lá o inverno fazia com que tudo ficasse mais lento, e mais doloroso. Um  dia de inverno, daqueles bem frios e estranhos, que as pessoas gostam de ficar em casa trancadas perto da lareira  e tomando um bom chocolate quente. Ah sim, todos gostam de ficar aquecidos, debaixo das cobertas tomando um bom e doce chocolate quente, e assim que toma-lo, adormecer como se não houvesse amanhã. Mas nesse vilarejo nada era bem assim, ninguém vivia com toda essa felicidade e tranqüilidade nos dias de inverno. Ninguém mesmo.

As pessoas ficam trancadas em casa, tirando a neve da porta, e limpando as janelas de tempos em tempos, quem fica tomando chocolate quente é trouxa. Não tem o que fazer, é se acha, chega até a ser medíocre. Pessoas ordinárias aquelas, tudo acham muito luxuoso, nada elas acham ordinário, decente. Mas certo dia de inverno, nasceu uma menina muito bela, de cabelos avermelhados, com o rosto todo coradinho como se estivesse sempre com  vergonha, os olhos cor do mais doce mel das abelhas. Mas tinha que ter nascido amaldiçoada a pobre criança? Tinha que ter nascido no inverno?  Pobre criança. Quando cresceu, sempre foi tratada diferente, como sempre foi uma criança muito ordinária, enquanto as outras eram apenas crianças.  Mas essa criança cresceu, essa criança estudou direito diferente de todas as outras crianças, e ela também estudou e se tornou alguém maior que todas aquelas crianças em toda aquela vila, aquelas crianças que um dia zombaram dela, aquelas crianças que um dia a chamaram de ordinária, que disseram que ela não passava de uma criança comum, mas eu tenho certeza, que em um dia de inverno, essa criança que cresceu hoje tem orgulho de falar:  Sou uma criança ordinária, comum, mas sou melhor que vocês, mas nem por isso, me acho mais luxuosa, e se algum dia eu falar o contrario, será como se eu fosse o carrasco e tivesse esquecido meu machado.

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Alice Côrdia Metista

Posted by Hannah Andrade em janeiro 20, 2010

Ela ficava lá no alto, pregada naquele imenso pano azul escuro infinito, brilhando como todas as outras – acho- estrelas que habitavam as alturas. Com uma cor meio parecida com aquela variedade do quartzo que tem uma tonalidade violeta. Muito excêntrica era Alice Côrdia Mestita. Enquanto as demais emitiam aqueles feixes meio azulados, maná, ambáricos… ela insistia em ser diferente.

Mas um dia, enquanto mil olhares fitavam Alice no céu, ela sentiu como se seu lugar não fosse ali. Todas aquelas faces estreladas ao seu redor, todos aqueles planetas ali um pouco mais adiate. Nada daquilo parecia colorido o bastante para Côrdia Metista. Ansiava por coisas novas; literalmente, pessoas novas. Estava cansada de toda aquela atenção, aquela admiração humana. Aqueles olhos que nem sempre merecem contemplar a beleza residente nas estrelas.

E ao contrário do que todo mundo pensa, o que uma estrela sabe fazer de melhor não é brilhar. As pessoas passam suas vidas inteiras com esse pensamento na cabeça: estrela, brilho. Não. Uma estrela não é apenas brilho, charme, glamour, divindade, perfeição… O que elas sabem fazer de melhor é cuidar de sonhos. Sim, dos sonhos de todo mundo. Elas cuidam para que o sonho não se vá, para que o sonho não morra sem luz quando a noite cai, para que todos os sonhos possam crescer, crescer, crescer debaixo de sua luz e da luz do luar.

Sonhos são como pequenas jasmins brancas: frágeis, aromáticos e brancos. Sim, são brancos. Alice sabe que sonhos são brancos. Todos eles. Por mais alegres, lúgubres, entediantes, sem sentido, lúcidos, patéticos, todos carregam consigo a mesma cor.

Pois bem, nesse dia Alice parou de brilhar. No céu as pessoas perderam de vista aquele ponto de luz violeta e começaram a procurá-lo todos os dias. Ninguém nunca mais o viu. Côrdia Metista havia apagado e, consequentemente, caído. Em seu trajeto rápido pelas diversas camadas da atmosfera, partia-se em diversos pedaços e deixava cair muita poeira estelar. Ao colidir com o chão, sobraram poucos pedaços que, aos poucos, foram se reduzindo ao mesmo pó espacial citado anteriormente.

Algum tempo depois, numa noite estrelada – no entanto, sem aquela estrela violeta -, alguém passeava por um deserto imenso onde um dia disseram ter caído algo vindo do céu. Esse mesmo alguém percebeu que havia, misturado com a areia do chão, um pó diferente de uma tonalidade estranha. Não tinha cor de areia, parecia brilho de estrela. Era pó estelar.

Ao levar essa substância para perto do rosto e examinar bem de perto e ter encontrado – finalmente – o que procurava, disse:

- Então é assim que é a essência dos sonhos. Cor de ametista.

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A menina dos fitilhos dourados

Posted by Hannah Andrade em janeiro 14, 2010

O vento vinha vindo velozmente como conchas côncavas caindo ao chão de areia fina numa praia linda e deserta. A noite nublada nadava e levava de lá para cá o seu tom escuro e sombrio. Naquele dia qualquer de puro silêncio sentido até nas profundezas da alma, a menina dos fitilhos dourados se curvava sobre a água gelada do mar misticamente morto.

Tudo estava exatamente onde deveria estar; como costumeira e constamente estava. Havia apenas a tendência ao desejo de sonhar. Sonhar sempre fora algo há tanto esquecido pela alma da menina dos fitilhos dourados.

Dia e noite, noite e dia, ela andava à beira-mar. Sentia o vento passar e a luz do luar. Sentia seus olhos brilharem e via as aves voarem. O mundo poderia sempre ser assim tão perfeito, não fosse a resistência da magia dos sonhos. Que queria adentrar aquela mente, aquele corpo, aquele coração.

No entanto, a garota se fechara como uma daquelas ostras ornamentais originais de lojas de decorações. Não queria que nada mexesse com o seu interior. Que nada a tocasse. Havia a vontade de se proteger de tudo e de todos. O mundo parecia perigoso para a menina dos fitilhos dourados.

E todas as noites se seguiriam da mesma forma. Sempre a mesma harmonia das cores, o ritmo incansável e imutável do canto diário dos pássaros silvestres. O mundo poderia ser perfeito se não houvesse a tendência ao desejo de sonhar.

Quando ela olhou algo brilhante no chão, reluzia como vidro, plástico, madeira, metal… Alguma coisa. Apenas brilhava. Nem tudo o que reluz é ouro, pensou ela. Abaixou-se para apanhar o algo desconhecido descansando demais ali na areia amarelada e fria. Era uma ampulheta.

A menina dos fitilhos dourados se distraiu. Não sentia mais nada; não ouvia mais nada; não vai nada além da silhueta peculiar daquela ampulheta em suas mãos. E neste momento de distração foi que a tendência aos sonhos conseguiu entrar.

E passou a sonhar com aquela ampulheta.

Sonhar com o tempo.

E tudo estava exatamente como antes.

O vento vinha vindo velozmente como conchas côncavas caindo ao chão de areia fina numa praia linda e deserta.

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